Obra do Mês | Maio 2016

 

ANTONIO POTEIRO (1925-2010)
Santa Ceia
Gravura, 70 x 97 cm
Assinado embaixo à direita
Adquirido em 1995
Cat. 2015, no. 458, pág. 108

O artista

Ceramista e pintor, o português Antonio Batista de Sousa chegou ainda criança ao Brasil, e morou em São Paulo, Minas e na Ilha do Bananal, entre os índios Karajá, até se radicar em Goiânia, onde ganhava a vida produzindo cerâmica utilitária (o que lhe valeu o cognome de Antonio Poteiro) antes de começar a fazer autênticas obras de arte em argila, dedicando-se mais tarde também à pintura. Artista ingênuo, mas leitor constante da Bíblia e conhecedor da História, Antonio Poteiro, cujas longas barbas brancas davam-lhe a aparência de um profeta bíblico, foi um dos artistas brasileiros mais conhecidos e apreciados no Exterior, tendo num sem-número de mostras internacionais  levado a inúmeros países seu  mundo de ideias, concretizado em barro ou a cores – “Deus-único, Deus-balança, um punhado de santos, temas regionais, as cavalhadas, cirandas”, como explicou em 1977 a um jornalista.

 

O tema

Religião e comida sempre andaram juntos, como o exemplificam a proibição de certos alimentos a judeus, muçulmanos, budistas e hindus, a abstinência dos cristãos em certos dias santificados e mesmo, em antigas sociedades tribais, a antropofagia ritual. Comer em companhia, comer junto, por outro lado, é hábito que remonta aos tempos pré-históricos e se manifestou em todas as épocas e culturas, bastando citar, como exemplo superlativo, O Banquete, de Platão. Um dos episódios máximos do Cristianismo é a instituição da Eucaristia (do Gr. Eucharistia, ação de graças), ocorrida durante a última ceia de Jesus com seus discípulos, na noite anterior à Paixão, momento, também, em que Jesus anunciou que Judas o trairia. O tema foi tratado por grandes artistas, como Giotto, Andrea del Castagno, Leonardo, Dieric Bouts, Justus van Ghent, Poussin, Tintoretto e vários outros, e entre nós por Manoel da Costa Ataíde e num dos Passos do Aleijadinho, em Congonhas do Campo.

 

A obra

Nessa pintura singela, típica de seu estilo, Poteiro evita inconscientemente tocar num ponto que levantou grandes celeumas entre os antigos teólogos: o posicionamento de Jesus e de Judas na Última Ceia. Assim, a menos que identifiquemos Jesus e Judas em lados opostos a cada extremidade da mesa, únicos personagens, aliás, vistos de perfil, todos os participantes do ágape se assemelham – barbudos, hirtos, cabeças contornadas por um halo -, embora quatro, possivelmente por exigências da composição, aparecem ao fundo, contra um céu estrelado. Como em tantas obras de arte ingênuas, nas quais o horror vacui é a regra quase geral, todo o espaço pictórico foi nessa preenchido num tosco pontilhismo.


José Roberto Teixeira Leite
Curador do Acervo FIEO


A obra Santa Ceia figurou o cartão de Natal da FIEO em 2005 


Data e local que a obra será exposta:

Data: De 16 a 31 de maio de 2016 (16 dias), Segunda a sábado, no mesmo horário do expediente 
Local: UNIFIEO – Centro Universitário FIEO – Portaria do Bloco Branco – Campus Vila Yara